Transporte por aplicativo já faz parte da realidade do transporte público – Por Marcos Paulo Schlickmann

Fonte: Caos Urbano

“Quando, há 50 anos, alguém inventou e testou a ideia de ‘pedir e entregar pizza’ por telefone, certamente alguns pizzaiolos torceram o nariz. Atualmente, são poucas as pizzarias que não oferecem este tipo de serviço. O mesmo se passa com os aplicativos: houve um período de turbulência e incompreensão, mas agora eles vão fazer parte da nossa realidade”, constata o engenheiro Marcos Paulo Schlickmann, para quem o transporte por aplicativo, assim como a contratação de outros serviços via telefone ou internet, veio para ficar.

O microtransporte, uma espécie de “Uber do transporte coletivo”, é um exemplo de transporte por aplicativo que tem sido uma “boa alternativa” entre o táxi e o ônibus para aqueles que não querem utilizar o automóvel. As características fundamentais do microtransporte, explica, “são a sua flexibilidade, o fato de ser moneyless (sem dinheiro), self-service (autosserviço) e inovador no que toca à comunicação com o passageiro: todo o processo de introduzir origem e destino, escolher o horário da viagem, efetuar pagamento, consultar locais de parada e localização em tempo real do veículo é feito por um aplicativo via smartphone, logo todas as viagens são pré-compradas, semelhante ao transporte aéreo”. Na avaliação de Schlickmann, “esta caraterística pode ser considerada disruptiva, pois elimina a incerteza da demanda, incentivo pernicioso comum aos serviços desregulados de transporte coletivo já referido neste trabalho: a competição dos operadores nas ruas pelos passageiros”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, o engenheiro menciona que “o transporte por aplicativo, mais especificamente Uber, Cabify, entre outros, tem impactado a demanda por transporte público, pois cria uma espécie de efeito cream-skimming (triagem): retira os clientes mais ricos”. Segundo ele, é possível tentar resolver este problema de duas formas: “tentando proibir a operação destes serviços ou melhorando a qualidade do transporte público”. Proibir a operação, adverte, “diminui a oferta de serviços de transporte coletivo e individual, normalmente deixando como opções motorizadas para o cidadão comum apenas o transporte coletivo público ou o automóvel individual privado”.

Schlickmann propõe a regulamentação dos transportes por aplicativo e sugere que ela “deve esclarecer, principalmente, os critérios de segurança e responsabilização legal dos agentes responsáveis por cada etapa do serviço: a empresa ou o profissional que prestam o serviço, as que intermedeiam a contratação, o fabricante do veículo ou o próprio cliente”.

Marcos Paulo Schlickmann é graduado em engenharia civil, especializado em transportes, e doutor em Sistemas de Transportes pelo Programa MIT Portugal. Atualmente trabalha na Câmara Municipal do Porto, em Portugal.

Continue lendo…

 

Como Salvador está vencendo o déficit de mobilidade urbana – Por Marcos Paulo Schlickmann

Salvador é uma capital que ainda convive com um dos piores trânsitos do país. Graças a um plano ambicioso, que tem no sistema metroviário o seu principal ator, a cidade começa a viver um novo momento em relação à mobilidade urbana.

O sistema metroviário de Salvador é uma história típica do planejamento de transportes brasileiro: uma ideia genial no papel, mas que nunca era executada. Em 2011, após doze anos de obras inacabadas, as coisas começaram finalmente a andar. Com um investimento atual de R$ 5,8 bilhões em regime de Parceria Público-Privada (PPP), o metrô de Salvador é uma das maiores obras de mobilidade urbana do Brasil nos últimos anos e uma das obras de infraestrutura mais rápidas do mundo (desconsiderando, é claro, o longo período que esteve parada). Ela responde por quase 50% do crescimento da rede de transporte de passageiros sobre trilhos do Brasil em 2017, principalmente devido à ampliação da Linha 2, que aumentou a rede em 14 km, com oito estações inauguradas em um ano. Segundo a ANTP, o metrô de Salvador entrou para o ranking dos cinco sistemas que mais expandiram no país em 2017.

Continue lendo…

plugins premium WordPress