Editorial El País – 10.05.2021

Uma população encurralada entre criminosos e policiais fortemente armados, que atiram para todos os lados em pleno cenário urbano. Esta é a rotina de milhares de moradores das favelas do Rio de Janeiro. E é também o que indica ser um dos principais erros da Polícia Civil na operação que deixou 28 mortos no Jacarezinho, na quinta-feira passada: agir pela lógica do confronto, não pela investigação e inteligência. “A Polícia Civil não está lá para fazer operação atirando; deve investigar, ir atrás dos criminosos, cumprir os mandados de prisão, mas não trocar inúmeros tiros em uma área urbanizada. Se não tivessem feito essa bobagem, e sim esperado para, aos poucos, ir prendendo cada um deles, não teria morrido um policial, nem ninguém”, opina o ex-investigador e cientista político Guaracy Mingardi, que há mais de duas décadas estuda as polícias, as organizações criminosas e as políticas brasileiras de segurança pública. O pesquisador fala ainda sobre como as polícias civis se “militarizaram” ao longo dos anos —no Rio, em especial, com o surgimento do Comando Vermelho. Na avaliação do especialista, porém, a estratégia deveria ser revista. “Você faz uma guerra prolongada e nem consegue diminuir a droga circulando? Alguma coisa está errada nessa política”, afirmou, em entrevista à Mariana Assis.

Também fomos à casa do historiador britânico Peter Brown, 85 anos, nos Estados Unidos, para uma longa conversa sobre a tendência política de manipular os fatos históricos para incitar medo na população. Ele é considerado por muitos o maior historiador vivo da língua inglesa, desde que, aos 36 anos, se debruçou sobre a Antiguidade tardia e o colapso de Roma. “Essa foi minha principal motivação: entender a natureza exata de certas crises, como as mudanças no Governo do Império Romano nos séculos III e IV. Queria descobrir se tinham sido desastrosas ou, na verdade, mudanças de ajuste da evolução; um equilíbrio entre a continuidade e a descontinuidade, a fragilidade e a resistência”, disse à jornalista María Antonia Sánchez-Vallejo. “Esquecer é uma tragédia. Mas acho que o problema são as lembranças pela metade.”

E ainda nesta edição, falamos com o músico Mbé, como assina o carioca Luan Correia. Nascido e criado na Rocinha, a comunidade que dá nome ao seu disco homônimo, um fenômeno que desponta na música experimental brasileira. O jornalista Leonardo Lichote conta como Correia cresceu sob a influência de grandes nomes do rock, dominado por músicos brancos, e que encontrou seu lugar ao pesquisar sobre grandes nomes do ativismo negro. “Comecei a buscar muita coisa de música africana e brasileira. E, nessas gravações, gostava muito das sujeiras, do barulho das aldeias. Porque os microfones nunca eram os melhores, então vazava muita coisa do ambiente: criança, galinha, conversas… Isso tem o poder de te transportar para aquelas situações, eu queria isso com a minha música: criar situações, ambientes, que jogam luz sobre nossa história.” O resultado é um dos álbuns mais originais da atualidade.  Boa leitura e ótima semana.

El País Brasil – 05.05.2021

Fonte: El País Brasil

O Brasil comovido pela morte do ator e humorista Paulo Gustavo, uma das mais de 411.000 vítimas da covid-19 no país, assiste à pressão subir sobre o Palácio do Planalto em Brasília, onde a CPI da Pandemia investiga se há responsabilidades de Jair Bolsonaro no agravamento da tragédia sanitária. No primeiro dia das apurações da comissão, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta gerou um desgaste (esperado) ao Governo e revelou a participação de Carlos Bolsonaro, filho do presidente e seu estrategista digital, em reuniões sobre a crise. O presidenciável do DEM chegou à comissão sem novos trunfos, mas detalhou os planos de Bolsonaro sobre a cloroquina e forçou a convocação do ministro da Economia, Paulo Guedes. A repórter Beatriz Jucá conta as expectativas sobre o depoimento do também ex-ministro da Saúde Nelson Teich, que ocorre nesta quarta-feira e pode emparedar o Governo ao se debruçar sobre a gestão federal nas primeiras negociações para a compra de vacinas.

No oeste de Santa Catarina, um atentado brutal chocou o pequeno município de Saudades. Munido de um facão, Fabiano Kipper Mai, de 18 anos, entrou em uma creche e desferiu golpes que resultaram na morte de duas funcionárias que trabalhavam no local e três bebês. A repórter Isadora Rupp escreve sobre as primeiras apurações sobre o caso e o perfil do jovem: “introspectivo”, segundo a polícia ele sofria bullying na escola e “vinha maltratando alguns animais”. Um bebê também ferido segue em estado grave no hospital.

Na Colômbia, o som das ruas é de medo e incerteza em meio a mais recente onda massiva de protestos. Ao menos 19 pessoas mortas e mais de 800 feridas é o saldo — provisório — das manifestações que começaram na última semana. O país vive uma escalada de violência em decorrência das marchas contra o projeto de reforma tributária do presidente Iván Duque. De Bogotá, o correspondente Juan Diego Quesada conta que a brutalidade das forças policiais na repressão dos protestos foi criticada pela ONU e pela União Europeia e já culminaram na demissão do ministro da Fazenda e no recuo do Governo, mas sem sinais de arrefecimento dos ânimos.

Na seção o EL PAÍS que fazemos, apresentamos Jan Martínez Ahrens, diretor do EL PAÍS América. Ele ressalta a importância da extensa rede de correspondentes do jornal pela América Latina e pelo mundo, que produz análises, reportagens e revela escândalos, como a Vaza Jato no Brasil, que mudou o curso da maior investigação policial brasileira. “Não olhamos somente o que acontece em um país, e sim em toda uma região. De fato, olhamos todo o planeta.”

Se puder, fique em casa. Ajude os mais vulneráveis se tiver chance.

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