O que está em jogo na COP26?

Analistas esperam que esta Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas seja a mais significativa desde a de 2015, quando foi alcançado o Acordo de Paris.

Fonte: Deustche Welle

Líderes mundiais se reunirão a partir de 31 de outubro em Glasgow, na Escócia, para a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP26, em um último esforço dos países para limitar o aquecimento global a 1,5 ºC neste século. A cúpula anual, convocada pela ONU e adiada no ano passado por causa da pandemia de covid-19, é um lugar para diplomatas negociarem tratados para retardar mudanças perigosas no clima. Em 2015, os países assinaram o Acordo de Paris – um pacto não vinculativo para limitar o aumento da temperatura a 2 ºC, de preferência para menos de 1,5 ºC, em relação à era pré-industrial.

No entanto, países continuam queimando combustíveis fósseis e desmatando a taxas incompatíveis com esse objetivo. Agora, com os efeitos visíveis das mudanças climáticas tanto em países ricos quanto nos pobres, os líderes se reúnem para o que os analistas esperam ser a conferência mais significativa desde a Conferência do Clima de Paris. As mudanças climáticas têm dominado a agenda política em meio a extremos climáticos letais, a protestos em massa e, ainda, ao comprometimento de vários líderes mundiais com a descarbonização de suas economias até meados deste século.

“Nas últimas duas décadas, deixamos de enfrentar o desafio climático e passamos a viver em um estado de emergência climático”, disse Shikha Bhasin, analista do Conselho de Energia, Meio Ambiente e Água (CEEW), um observatório em Nova Déli, na Índia. “E é exatamente por isso que a próxima COP26 é crucial.”

O que está na agenda da COP26?

Sob o Acordo de Paris, os líderes mundiais podem escolher a rapidez com que seus países reduzirão suas emissões. Eles concordaram ainda em atualizar seus planos de ação a cada cinco anos para atingir esse objetivo. Mas, a poucas semanas da COP26, grandes emissores, como China, Índia e Arábia Saudita, ainda não apresentaram novos planos. Um relatório publicado em setembro pela ONU Climate Change, o órgão que organiza as negociações internacionais sobre o clima, concluiu que os planos atualizados respondem por apenas cerca da metade das emissões globais de gases de efeito estufa.

O Reino Unido, que sedia a cúpula juntamente com a Itália, quer que os países apresentem novos planos e pressiona por acordos concretos que ajudem a atingir esses objetivos. O primeiro-ministro Boris Johnson apelou para que líderes mundiais assumam compromissos ousados envolvendo “carvão, carros, dinheiro e árvores”. O Reino Unido pressiona por um tratado que “remeteria o carvão para a história” e propõe a interrupção da venda de carros com motor a combustão até 2040. O país também quer investir mais dinheiro para impedir o desmatamento.

Quem vai pagar a conta?

Uma questão no topo da agenda será quanto dinheiro os países ricos, que são os maiores responsáveis ​​por poluir a atmosfera, enviarão para os mais pobres, que são os mais afetados pelas mudanças climáticas. Em 2009, as nações mais ricas concordaram em desembolsar 100 bilhões de dólares por ano em financiamento climático até 2020. Mas, em 2019, eles ficaram aquém desse objetivo em cerca de 20 bilhões de dólares depois de terem subido apenas para 79,6 bilhões de dólares, de acordo com as últimas estimativas da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nesses dez anos, a temperatura média da Terra subiu tanto que a última década foi a mais quente já registrada.

Analistas disseram que o pagamento é importante por duas razões. Primeiro, porque o dinheiro é necessário, mesmo que não seja suficiente para cobrir os custos das mudanças climáticas ou de uma transição para as energias renováveis. Mas também é uma questão diplomática, conta Jennifer Tollman, especialista em diplomacia climática do E3G, um think tank europeu sobre o clima. “Qualquer negociação internacional é construída sobre uma base de confiança. A entrega insuficiente desses 100 bilhões de dólares está obviamente fazendo com que essa base desmorone até certo ponto”, diz.

O que mais importa?

Os países mais vulneráveis às mudanças climáticas pediram uma maior atenção – e financiamento – para se adaptarem aos seus efeitos. Além disso, há detalhes técnicos do Acordo de Paris que ainda precisam ser resolvidos antes de ele entrar em vigor de forma adequada. Isso inclui regras em torno de um mercado global de carbono – a forma como os países comercializam suas emissões e as “compensam” investindo em projetos que reduzem a poluição – e também a forma como os países devem informar formalmente os cortes em suas emissões.

As principais negociações, que se estenderão por duas semanas – de 31 de outubro a 12 de novembro –, reunirão líderes mundiais, cientistas, empresas e setores da sociedade civil. Delegados de países mais pobres advertiram que as atuais restrições de viagem, a falta de vacinas e os custos de hospedagem dificultarão a participação, e isso torna mais difícil responsabilizar os países mais ricos e poluidores históricos. Na última COP, que ocorreu em Madri, na Espanha, em 2019, as negociações duraram dois dias a mais que o previsto: negociadores frustrados lutavam para chegar a um acordo sobre o aumento das metas, mas, no final, não conseguiram chegar a um acordo sobre o mercado de carbono.

Até agora, as cúpulas climáticas não conseguiram responsabilizar os países, mas a COP26 pode ser uma chance de construir uma ponte de confiança, disse Bhasin, do CEEW. “Isto é o que temos e, portanto, temos que encontrar uma maneira de fazer funcionar.”

Aumento da produção de combustível fóssil vai minar meta climática, alerta ONU

Relatório afirma que principais economias do mundo, entre elas o Brasil, produzirão até 2030 mais que o dobro da quantidade de carvão, petróleo e gás condizente com o cumprimento das metas do Acordo de Paris.

Fonte: Deustche Welle

As principais economias do mundo produzirão, até 2030, mais que o dobro da quantidade de carvão, petróleo e gás condizente com o cumprimento das metas climáticas estabelecidas no Acordo de Paris, que preveem limitar o aquecimento global a 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais. 

O alerta foi feito nesta quarta-feira (20/10) pela ONU e pelo Instituto de Meio Ambiente de Estocolmo, a apenas dez dias da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP26, em Glasgow, na Escócia.

Um relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) mediu a diferença entre o uso planejado de combustíveis fósseis pelos governos de 15 países, entre eles o Brasil, e os níveis de uso condizentes com o cumprimento dos limites de temperatura estabelecidos em Paris em 2015.

“A pesquisa é clara: a produção global de carvão, petróleo e gás deve começar a declinar imediatamente e abruptamente para ser condizente com a limitação do aquecimento de longo prazo a 1,5 °C”, disse Ploy Achakulwisut, do Instituto de Meio Ambiente de Estocolmo e um dos principais autores do estudo.

“Perigosamente fora de sincronia”

Segundo o relatório, os planos dos governos para a produção de combustíveis fósseis nesta década estão “perigosamente fora de sincronia” com os cortes de emissões necessários. “Os governos planejam produzir 110% mais combustíveis fósseis em 2030 do que seria compatível com o limite de aquecimento global de 1,5 °C, e 45% mais do que seria compatível com o limite de 2 °C”, afirma o relatório.

O texto também revela que, em vez de diminuir, a produção de combustíveis fósseis provavelmente aumentará até pelo menos 2040. De acordo com Michael Lazarus, um dos coautores do estudo, alguns países estão acelerando o ritmo de produção, com a ideia de “serem os últimos a sair” do gigantesco negócio de combustíveis fósseis.

A pior situação é a do carvão. Os planos e projeções dos 15 países analisados ​​preveem que a produção aumentará 240% até 2030, enquanto a de petróleo terá um crescimento de 57% e a de gás, de 71%. “Chegou a hora de os países alinharem seus planos para o setor de energia com suas ambições climáticas”, alertou Niklas Hagelberg, coordenador do subprograma de mudança climática do Pnuma.

Situação do Brasil

Entre os 15 países analisados estão Alemanha, Estados Unidos, Arábia Saudita, Brasil e México – os dois últimos não se comprometerama reduzir drasticamente suas emissões de gases de efeito estufa até 2030. O plano energético brasileiro até 2050, aprovado no ano passado, prevê “atrair investimentos e aumentar a produção de petróleo e gás” para tornar o país um dos cinco maiores produtores mundiais, lembra o relatório.

Já o México quer desenvolver a “soberania energética”, o que envolve a recuperação da produção de petróleo, que diminuiu significativamente nos últimos 15 anos. Nem mesmo países considerados exemplares na luta contra as mudanças climáticas estão se saindo muito bem.

A Noruega, que tem um fundo de investimentos de mais de 1 trilhão de dólares graças à exploração ininterrupta de seus campos de petróleo e gás, se limitou a indicar que deixará de investir na extração de carvão e em algumas atividades petrolíferas. Mas mantém seus objetivos nacionais em relação aos combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que se posiciona como um campeão ambiental. O país planeja aumentar seus cortes nas emissões de gases de efeito estufa para entre 50% e 55% até 2030, conforme anunciado no início deste ano.

Nos Estados Unidos, as projeções mostram que a produção de petróleo e gás aumentará em 17% e 12%, respectivamente, até 2030, em comparação com os níveis de 2019. Muito desse montante será exportado, o que significa que as emissões da queima desses combustíveis fósseis não aparecerão nas contas dos EUA, embora sejam acrescidas ao total global. A produção americana de carvão está projetada para diminuir em 30% na próxima década em comparação com 2019.

Janela se fechando

Desde o início da pandemia de covid-19, os países do G20 gastaram mais de 300 bilhões de dólares no setor de combustíveis fósseis, revela o relatório. A própria Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) reconheceu em seu último relatório que a pressão para consumir fontes de energia baratas e abundantes não diminuirá nas próximas décadas, apesar dos cenários catastróficos alertados por especialistas.

“A energia moderna é inseparável do modo de vida e das aspirações de uma população mundial que crescerá em cerca de 2 bilhões de pessoas até 2050”, advertiu a IEA. O relatório apresentado nesta quarta-feira também concluiu que o grupo das 20 principais economias industrializadas e emergentes investiram mais em novos projetos de combustíveis fósseis do que em energia limpa desde o início de 2020.

“Ainda há tempo de limitar o aquecimento global em 1,5 °C, mas essa janela de oportunidade está se fechando rapidamente”, disse o diretor executivo da agência, Inger Andersen, reforçando que acordos precisam ser alcançados na COP26.

O evento reunirá representantes de quase 200 países, de 31 de outubro a 12 de novembro. A cúpula anual, convocada pela ONU e adiada no ano passado por causa da pandemia, é palco para diplomatas negociarem tratados para retardar mudanças perigosas no clima.

le/ek (AP, AFP, Reuters)

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