Biden rejeita críticas e defende decisão de retirar tropas do Afeganistão

“Nossa missão jamais foi a de criar uma nação”, diz presidente americano. Ele admite ter sido surpreendido com avanços do Talibã, mas critica falta de resistência das autoridades e das forças de segurança afegãs.

Fonte: Deustche Welle

Joe Biden
Biden criticou líderes afegãos que abandonaram o país em meio à ofensiva do Talibã

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, defendeu nesta segunda-feira (16/08) sua decisão de pôr fim à presença americana no Afeganistão  e rejeitou as fortes críticas voltadas ao seu governo pela retirada caótica de militares e civis do país. O americano condenou líderes e políticos afegãos que abandonaram o país na Ásia Central e abriram caminho para a tomada de poder pelo Talibã, e criticou a falta de resistência por parte das forças locais, que evitaram entrar em confrontos com os islamistas.

Biden ainda culpou seu antecessor, o ex-presidente Donald Trump, por ter fortalecido o Talibã durante seu governo e, segundo afirmou, deixado os insurgentes em sua melhor situação militar desde 2001, ano em que teve início a intervenção americana no país. O governo Trump fechou um acordo com os islamistas que previa a retirada americana e estabelecia que, em contrapartida, o Talibã teria de negociar a paz com o governo afegão. Porém, logo que as tropas da coalizão internacional liderada pelos EUA começaram a deixar o país, os insurgentes deram início à sua ofensiva.

A decisão de Biden de retirar as tropas gerou críticas de aliados e adversários. Muitos afirmam que isso levou o governo afegão a entrar colapso em questão de poucos dias. Washington também vem sendo fortemente criticada pela retirada desordenada de civis americanos e funcionários da embaixada do país em Cabul. “Mantenho com firmeza minha decisão”, disse o presidente na Casa Branca, em sua primeira aparição pública desde o rápido avanço dos islamistas, até a tomada de Cabul. “Depois de 20 anos, aprendi do jeito mais difícil que nunca haveria uma época ideal para realizar a retirada das tropas americanas. É por isso que ainda estávamos lá.”

Ele admitiu que Washington não contava com o êxito dos islamistas, e não poupou críticas ao presidente Ashraf Ghani, que abandonou o país, e aos líderes políticos afegãos. “Demos a eles todas as oportunidades para determinarem eles mesmos o seu futuro. Mas, não pudemos fornecer a eles a vontade de lutar por esse futuro.” “A verdade é que as coisas aconteceram mais rapidamente do que prevíamos”, afirmou, ao se dizer surpreendido com a falta de resistência das autoridades locais e das forças de segurança. “Os líderes políticos afegãos desistiram e fugiram do país. Os militares afegãos desistiram, às vezes, sem sequer tentar lutar.”

Missão cumprida?

Os Estados Unidos e seus aliados invadiram o Afeganistão após os ataques de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington, e retiraram do poder o Talibã, acusado de dar abrigo a terroristas da Al Qaeda, que estariam por trás dos ataques em solo americano. “Chegamos ao Afeganistão há quase 20 anos com objetivos bem definidos: capturar aqueles que nos atacaram em 11 de setembro de 2001 e assegurar que a Al Qaeda não pudesse usar o Afeganistão como base para novos ataques. Conseguimos isso.”

“Jamais desistimos da caçada por Osama bin Laden, e o pegamos”, afirmou, em referência ao ex-líder da Al Qaeda, acusado de planejar os ataques de 2001. Bin Laden foi morto em 2011, numa operação de uma equipe de elite da Marinha americana no Paquistão. “Nossa missão no Afeganistão jamais foi criar uma nação, nunca tivemos o objetivo de criar uma democracia unificada e centralizada”, sublinhou. O presidente disse que não tinha a intenção de arriscar as vidas de uma nova geração de soldados americanos em uma guerra que já deveria der sido encerrada há muito tempo.

“Nossos líderes fizeram isso no Vietnã quando estive lá na minha juventude. Não farei o mesmo no Afeganistão. Sei que minha decisão será criticada, mas prefiro receber todas essas críticas a repassar essa decisão para outro presidente.”

rc (AFP, Reuters)

Afegãos temem volta ao passado após vitória do Talibã

Fonte: Deustch Welle

Grupo fundamentalista islâmico diz que pretende formar um governo inclusivo e proteger os direitos dos cidadãos. No entanto, para muitos afegãos o “novo Talibã” não será diferente do regime linha dura dos anos 1990.

Cindo militantes do Talibã
Talibãs prometem proteger cidadãos, mas já há provas do contrário

Depois que os talibãs tomaram a capital afegã, Cabul, neste domingo (15/08), sem qualquer resistência das forças governamentais, Suhail Shaheen, porta-voz do grupo fundamentalista islâmico, declarou no Twitter que as ordens estritas para os militantes eram de não fazer mal a ninguém. “A vida, propriedade e honra de ninguém será prejudicada, mas sim deve ser protegida pelos mujahidim”, afirmou, referindo-se aos guerrilheiros talibãs. Antes, seu colega Mohammad Naeem dissera à emissora Al Jazeera que o Talibã não queria viver em isolamento e almejava relações internacionais pacíficas.

Enquanto os islamistas tomavam conta da capital sem derramamento de sangue, seus comandantes anteciparam que estão prontos a formar um governo “inclusivo” com as demais partes interessadas afegãs. Segundo especialistas, tais declarações visam projetar uma face “moderada” do grupo, que chegou a prometer que respeitará os direitos femininos e protegerá tanto afegãos quanto estrangeiros.

Motivos para medo, sobretudo entre mulheres

Segundo relatórios das Nações Unidas e dos Estados Unidos, porém, os talibãs haveriam cometido crimes de guerra durante as ofensivas contra forças governamentais afegãs, tendo executado, em partes do país, alguns dos soldados que se renderam. Os militantes rechaçam tais acusações. Mas são muitos os afegãos que tampouco acreditam que os ocupadores cumprirão suas promessas, e temem que eles retomem práticas passadas, com a imposição rigorosa da lei islâmica, a sharia. Durante o domínio talibã anterior, de 1996 a 2001, os fundamentalistas não permitiam que mulheres trabalhassem e impuseram punições brutais, como açoitamento e enforcamento.

“Eu encorajei uma das minhas colegas a entrar para a polícia. Militantes talibãs a assassinaram em casa”, relatou à DW uma oficial da polícia da província de Kunduz, sob a condição de anonimato. A veloz e sumária campanha armada do Talibã através do Afeganistão forçou centenas de milhares a fugirem para Cabul. Grande parte são mulheres, que relatam casos de atrocidades pelos militantes. Salima, uma refugiada da província de Takhar, conta que os talibãs foram até as mesquitas da área dela e comunicaram que seus militantes tomariam as viúvas e adolescentes como esposas.

“Eles disseram que os combatentes iam se casar com duas filhas de toda família que tivesse três. Ficamos com medo e fugimos. Nossa casa foi atingida e destruída. Nós escapamos às 2 horas da madrugada, com só um par de sapatos e as roupas. Não temos mais nada.”

Um “novo” Talibã?

Outros afegãos, por sua vez, relatam que os ocupadores estão mostrando moderação. “Os combatentes talibãs não estão atacando antigos funcionários do governo”, afirmou à DW Ghulam Haidar, um ancião de Kunduz, acrescentando que a população teria acesso a comida e água. No entanto, “o aeroporto não está operacional, não há voos comerciais nem militares partindo da província”. As escolas estão fechadas, pois “os talibãs planejam usá-las como centros de reabilitação para narcodependentes”.

Mas nem as instituições de ensino, nem outras instalações governamentais serão transformadas em acampamentos militares, assegurou Haidar. Segundo residentes, o Talibã tampouco está impedindo o funcionamento do comércio, porém alguns negociantes ainda hesitam em abrir suas lojas.

Abandonados e traídos

O Talibã começou sua campanha de ocupação já fevereiro, quando o presidente americano, Joe Biden, anunciou a retirada incondicional de suas tropas do Afeganistão. Os Estados Unidos têm sido duramente criticados por deixarem o país, no que muitos consideram um passo precipitado, sem que haja um pacto de paz formal entre todas as partes interessadas afegãs. Segundo relatos, os afegãos se sentem, em grande parte, abandonados e traídos pelos EUA, os quais haviam prometido zelar pelos direitos humanos em seu país.

“Durante meses, nós instamos o governo afegão e a comunidade internacional a defenderem a nossa cidade, mas ninguém deu atenção aos nossos apelos”, queixa-se Halima Sadaf, deputado da província de Jawzjan, no norte.

“A comunidade internacional é também responsável pelo que está acontecendo no Afeganistão neste momento. Ela deu legitimidade aos talibãs, ao assinar um acordo de paz com eles. E agora que eles estão cometendo crimes de guerra no nosso país, a comunidade internacional sequer está condenando esses atos.”

plugins premium WordPress