Boletim [a_nexo] 05 de março

resumo de hoje —

A insensibilidade do presidente no pior momento da pandemia. Os pedidos por mais vacinas. A PEC Emergencial aprovada no Senado. E outras coisas mais.


entenda o que está em jogo agora —

Insensibilidade

  • Jair Bolsonaro deu uma série de declarações ontem, um dia depois de o Brasil ter batido recorde de mortes diárias por covid-19 na pandemia. “Nós temos que enfrentar os nossos problemas, chega de frescura e de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”, disse em evento em Goiás. / o globo

Grosseria

  • Já em Minas, o presidente disse: “Tem idiota que a gente vê nas redes sociais, na imprensa, [dizendo] ‘vai comprar vacina’. Só se for na casa da tua mãe. Não tem [vacina] para vender no mundo”. A falta de negociação prévia com laboratórios é apontada como uma das causas de escassez de imunizantes no país. / g1

Indignação

  • Houve indignação nas redes sociais diante das declarações de Bolsonaro, dadas no pior momento da pandemia que já matou 261 mil brasileiros em quase um ano. O Nexo ouviu ativistas, cientistas políticos e líderes comunitários sobre como reagir de forma efetiva contra as investidas do presidente. / nexo

Vacinação

  • Catorze governadores enviaram ontem uma carta para Bolsonaro dizendo estar no “limite de suas forças” e pedindo um “esforço ainda maior” do governo federal para obter mais vacinas. A imunização patina no país, as negociações por mais doses estão emperradas e, enquanto isso, o número de casos explode. / nexo

Investigação

  • A Procuradoria-Geral da República abriu uma apuração para averiguar possível crime de falsidade ideológica de Eduardo Pazuello ao incluir no Plano Nacional de Imunização nomes de pesquisadores que não foram consultados para elaborar o documento. O ministro da Saúde já é investigado pelo colapso no Amazonas em janeiro. / folha

Votação

  • O Senado concluiu ontem a votação da PEC Emergencial, que abre caminho para a recriação do auxílio emergencial para a população de baixa renda. As medidas voltadas ao ajuste fiscal que estão no texto não são imediatas. A proposta agora segue para a Câmara dos Deputados. / estadão

olhe além da fronteira —

Lentidão na Europa

  • Após seis semanas de queda, os números de contágio pelo coronavírus voltaram a subir na Europa, seguindo tendência mundial. O nível de cobertura vacinal ainda é baixo no continente, onde só 8,86 pessoas em cada grupo de cem tomaram alguma dose de algum dos imunizantes disponíveis. / estadão

Bolsonaro e Argentina

  • O presidente Jair Bolsonaro confirmou ontem que participará da cúpula dos 30 anos do Mercosul, no dia 26 de março, em Buenos Aires. Ele também manifestou apoio à iniciativa argentina de buscar recursos no Fundo Monetário Internacional. / o globo

Papa no Iraque

  • O papa Francisco dá início hoje a uma visita de três dias ao Iraque, país de maioria muçulmana. Ele deve se encontrar com o líder máximo da vertente xiita, o aiatolá Ali Al-Sistani. / folha

fique atento a isto —

Suspeita

  • Num diálogo entre procuradores da Lava Jato via Telegram, Deltan Dallagnol afirmou que a ministra Cármen Lúcia, então presidente do Supremo, pediu para que o Ministério da Justiça, que comanda a Polícia Federal, não cumprisse uma ordem judicial que determinava a soltura do ex-presidente Lula em julho de 2018. / folha

Resultado

  • Lula estava preso pelo caso tríplex. Um desembargador de plantão mandou soltar o petista, que à época era pré-candidato ao Planalto. Após uma articulação que envolveu o então juiz Sergio Moro, a decisão foi derrubada pelo então presidente do TRF-4, Thompson Flores. O ex-presidente continuou atrás das grades. / poder360

Negativa

  • Ministro da Justiça em 2018, Raul Jungmann nega que Cármen Lúcia tenha pedido o descumprimento da ordem dada pelo desembargador de plantão. O Ministério Público também refuta a autenticidade dos diálogos, usados pela defesa de Lula em seu argumento de que o petista foi perseguido pela Lava Jato. / conjur

Por que a gestão do meio-fio é um dos grandes desafios da mobilidade?

Artigo publicado originalmente em WRI Brasil em 13 de janeiro de 2021.

Luis Antonio LindauCristina AlbuquerqueGuillermo Petzhold e Fernando Corrêa –

Carros por aplicativo, bicicletas, patinetes, serviços de entrega e acessos a garagens competem pelo mesmo espaço entre as calçadas e as faixas de tráfego. Tradicionalmente utilizado para estacionamento e circulação de veículos, o meio-fio é um recurso escasso e em disputa — e a gestão desse espaço para acomodar seus múltiplos usos tornou-se um desafio inadiável nos grandes centros urbanos.

No século passado, engenheiros de tráfego tinham como objetivo conformar o ambiente viário urbano para acomodar o crescimento exponencial dos carros privados. Em prol do carro, a busca pelo aumento da capacidade viária consumiu até o espaço dos pedestres nas calçadas.

Desde os últimos anos, cidades ao redor do mundo enfrentam o desafio de compatibilizar a circulação de modos de transporte e serviços com características muito diversas. Felizmente, as mesmas tecnologias que viabilizam carros por aplicativo e bikes compartilhadas podem fornecer a gestores e planejadores urbanos dados sobre os usos que as pessoas fazem do espaço viário, subsídios para um gerenciamento mais dinâmico do acesso ao meio-fio.

Abordagem múltipla

Enquanto no Brasil a substituição do estacionamento junto ao meio-fio por usos como faixas para ônibus ou bicicletas ainda gera polêmica, algumas cidades já incorporaram a discussão sobre as múltiplas vocações do meio-fio ao seu planejamento de mobilidade. Algumas táticas têm sido utilizadas com resultados positivos:

Zonas de embarque e desembarque

Primeiro foram os aeroportos que tiveram de se adaptar à chegada dos carros por aplicativo, criando novas áreas para esses serviços em seus já disputados acessos. Agora, cidades fazem o mesmo. Washington, San Francisco e Chicago têm implementado zonas de embarque e desembarque em avenidas com grande fluxo de pessoas. As PUDOs (pick-up/drop-off zones) também podem redirecionar embarques e desembarques para vias próximas, menos movimentadas. As experiências mostram sinais positivos, contanto que empresas de carros por aplicativos respeitem e estimulem o uso dessas áreas.

Precificação dinâmica do estacionamento

Em San Francisco, as tarifas para estacionar junto ao meio-fio são mais baratas em áreas menos disputadas e mais caras em áreas concorridas. Com o auxílio de sensores que detectam a ocupação das vagas, o poder público pode aumentar ou diminuir a tarifa de cada zona de acordo com a demanda. As informações sobre vagas e preços são disponibilizadas online, de modo que motoristas perdem menos tempo — e causam menos prejuízo ao trânsito — na busca por vagas.

Cidades têm regulamentado o estacionamento de patinetes nas calçadas (Imagem: Christian Bueltemann/Pixabay)

Ordem nas calçadas

Transferir para as calçadas o que se quer tirar da via — sejam áreas de embarque e entregas ou as próprias ciclofaixas — pode tornar mais precária a circulação do pedestre. É preciso regramento para patinetes e bicicletas compartilhadas, tal como a delimitação de áreas destinadas para o estacionamento desses veículos. Esse cercamento pode ser físico ou eletrônico e georreferenciado — neste caso, o usuário é informado pelo aplicativo sobre zonas recomendadas para o estacionamento.

Washington vai mais do que dobrar a oferta de bikes e patinetes em 2020 e inclusive dispõe de programa de acesso gratuito para pessoas em determinada faixa de renda, promovendo assim a equidade ao acesso e uso da inovação. Para que o aumento da frota não prejudique pedestres, está implantando 100 zonas de estacionamento junto ao meio-fio.

Dados de carros por aplicativo viram insumo

Dados abertos ou provenientes de empresas da nova mobilidade em parceria com cidades fornecem aos gestores subsídios para delimitar intervenções como as áreas de embarque e desembarque (é claro que o anonimato das informações sobre motoristas e passageiros deve ser garantido).

Para redirecionar a avalanche de solicitações de viagens em avenidas movimentadas para transversais mais tranquilas, San Francisco utilizou dados da Lyft sobre os locais onde os usuários do aplicativo solicitam viagens. Os testes deram certo, reduzindo congestionamento e aumentando segurança.

Mapa de San Francisco em que círculos coloridos marcam pontos de solicitação de viagem, e estrelas marcam PUDOs.

A imagem acima integra o artigo Coding the Curb (“programando o meio-fio”, em tradução livre), em que a empresa de mobilidade Passport afirma que a integração de dados dos vários serviços de mobilidade pode gerar inteligência, qualificar a gestão e conduzir a cidades mais habitáveis e equitativas. “Ao fazer a gestão de todos os modos de transporte a partir de um hub central de controle, incluindo regras, tarifas e regulações, as cidades ganharão eficiência e poderão oferecer soluções mais inovadoras com mais agilidade”, aponta a publicação.

Gestão para o futuro

O pior cenário de uma avenida é o que permite carros estacionados de um lado do meio-fio, transportando zero pessoas, e uma calçada estreita e com pavimento inapropriado do outro. Infelizmente, é o que ainda predomina nas cidades brasileiras. O melhor é o que atende os preceitos da Lei de Mobilidade, que determina a priorização dos transportes ativo e coletivo sobre o individual motorizado. Este cenário contempla calçada adequada e ciclofaixa que, além da bicicleta, consegue abrigar as inovações da micromobilidade.

A crescente demanda pelo uso de aplicativos e o aumento dos serviços de entrega torna urgente o regramento do uso do meio-fio e das calçadas. Não apenas para acomodar as inovações do presente e do futuro, mas para corrigir equívocos passados. Para além dos serviços de entrega e das novas opções de mobilidade, a gestão do meio-fio do século 21 deve garantir prioridade, fluidez e atratividade a formas mais sustentáveis de transporte, e redemocratizar o uso das calçadas.

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