Por Sérgio Veloso e Vinícius Santiago

Publicado pela Fundação Henrich Böll Brasil

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Introdução retirada da página 11 do estudo

O tema da mobilidade urbana tem ganhado mais e mais atenção da mídia e de pesquisadores, em especial após os investimentos feitos com a realização dos megaeventos no Brasil. Cercados de polêmica, Copa do Mundo de Futebol e Jogos Olímpicos impulsionaram um investimento de R$ 69,3 bilhões, em sua grande parte feito pelo poder público. A mobilidade urbana
teve papel de destaque nas cidades-sede da Copa e no Rio de Janeiro, sede dos dois eventos, foram investidos cerca de R$ 18 bilhões nos últimos oito anos. BRT, VLT, metrô, construção de túneis e vias expressas criaram a expectativa de que se ganharia tempo, se diminuiria engarrafamentos na cidade, se teria mais segurança, e com as obras, maior oferta de emprego.

O ciclo de 10 anos de megaeventos terminou e parte das expectativas não se concretizou. Os engarrafamentos continuam, quase 50% desse recurso foram gastos com apenas cinco estações do metrô. O BRT já está esgotado, o VLT é um transporte utilizado realmente apenas em um período de duas horas do dia, os empregos terminaram e o Rio de Janeiro passa por uma grave crise econômica. Os investimentos em mobilidade estiveram voltados para atender a zonas específicas da cidade. As favelas tiveram pouca atenção nos planos de mobilidade. O teleférico do Complexo do Alemão e o do Morro da Providência foram as grandes obras em mobilidade para as favelas.Mas, desde outubro de 2016, o do Alemão encontra-se fechado. O mesmo
acontece com o da Providência desde dezembro. Foram investidos cerca de R$ 210 milhões no Alemão e R$ 75 milhões na Providência.

Para moradores o teleférico tinha alguma utilidade, apesar de não ser o serviço ideal para certas zonas. É o que nos mostra um dos resultados da pesquisa financiada com recursos da Fundação Heinrich Böll Ninguém entra, ninguém sai: mobilidade urbana e direito à cidade no Complexo do Alemão, dos autores Sérgio Veloso e Vinícius Santiago, feita em parceria com o Brics Policy Center e o coletivo Papo Reto. A pesquisa nos dá pistas para entender a qualidade do acesso à cidade dos moradores do Alemão e sua conexão com outros temas como a violência urbana, as desigualdades de gênero e a relação dessas pessoas com o restante da cidade. O ir e vir pressupõe segurança, conforto e previsibilidade dos meios de transporte e do local em si. Para pais e  mães segurança em trafegar com seus filhos pela favela. Reféns da guerra às drogas, os moradores do Alemão sofrem com tiroteios constantes, a violência policial e um
completo descaso do estado com a morte de civis. Os depoimentos dos moradores mostraram que a atenção tem de ser especial, inclusive com táticas de como se mover em meio a situações de tiroteio ou lidar com uma polícia que vê todos e todas como possíveis integrantes de facções criminosas.

Boa leitura!
Marilene de Paula
Coordenadora de Programa
Fundação Heinrich Böll

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