Fonte: ANTP Informa <informa@antp.org.br>
Este texto
foi retirado da fonte acima citada, cabendo a ela os créditos pelo mesmo.
Fizeram a faixa de ônibus para dizer que instalaram, e só.
Essa é a impressão que eu tenho. Para quem anda de carro há muito tempo aqui, a
rotina piorou bastante”, diz o advogado Marcelo Doria, de 38 anos. Há um
ano, ele passou a conviver com uma faixa para coletivos a menos de 50 metros da
saída de seu condomínio, no Itaim-Bibi, zona sul da capital. (da matéria “Disputapor espaço em uma cidade em transformação“, O Estado de SP)
O caso da mobilidade é exemplar: no Brasil urbano, embora o
transporte coletivo seja o mais demandado pela população, os governos gastam 14
vezes mais em despesas relacionadas ao transporte individual do que ao
transporte coletivo. (ArquitetoSérgio Magalhães) Em
reportagem especial neste domingo, sob o título “Paraonde vai São Paulo, a metrópole e seus caminhos“, o jornal ‘O Estado
de SP’, com a intenção de debater a política de mobilidade da atual gestão
municipal da capital, demonstrou o quanto a cultura rodoviarista está
entranhada até os poros de muitos paulistanos.
O
título demonstra não haver dúvidas quanto à posição do tradicional veículo –
São Paulo vai para o caos, a continuarem as mudanças implementadas pelo atual
prefeito no viário urbano.A
defesa enviesada dos automobilistas parece ser o tom da matéria, a ponto de em
vídeo no site do jornal a reportagem acompanhar um motorista morador de bairro
de classe média alta para mostrar como a “política do prefeito”
alterou sua rotina. A rotina de um morador da periferia, que depende de
transporte público, ou mesmo de quem se utiliza de bicicleta, esta foi solenemente
ignorada pela reportagem, como se não fizesse a menor diferença.
Pelo
visto, só teve direito a voz quem sempre teve vez no viário urbano das cidades:
os donos de carros, muitos deles que diariamente vão trabalho sem levar consigo
um único passageiro. A reportagem ainda afiança em subtítulo a frase
“Gestão Haddad tira 716 km de faixas dos carros”, como se esse fosse
o grande problema, e não o que foi posto no lugar. No final mais pessoas foram
atendidas? Ou apenas os carros foram os grandes derrotados?
Esta
semana outro debate encheu muitas páginas de jornal – a polêmica do Uber,
aplicativo que colocou taxistas em pé de guerra. Sem entrar no mérito do certo
e errado, uma questão é indiscutível: “odigital veio mesmo para bagunçar a vida. Temos todos de nos adaptar“,
como afirma o colunista Pedro Doria, do Globo.
A
História conta como a infrutífera reação de operários contra o surgimento de
máquinas na produção fabril, no início do século XVII, na Inglaterra. O
ludismo, nome dado ao movimento surgido em plena Revolução Industrial, tinha o
intuito de defender empregos, e para tanto destruía as máquinas. Hoje, muitos
defensores do uso intensivo do automóvel como principal meio de locomoção nas
cidades lutam com unhas e dentes para defender seus interesses. Para tanto
rejeitam toda e qualquer ação que lhes restrinja espaços.
A
destruição de máquinas não foi capaz de deter o avanço da tecnologia, tampouco
o surgimento do capitalismo moderno. A raivosa reação contra a redistribuição
do espaço público em nossas cidades terá o mesmo insucesso, basta perceber que
tal política tornou-se fato inconteste em muitos países avançados. A
questão não é ideológica, nem partidária, como boa parte da imprensa tenta
insinuar, mas de sobrevivência das cidades. É uma questão econômica e
ambiental. E como toda transformação coloca em xeque privilégios. Neste caso,
exige a prevalência do interesse coletivo sobre o individual.

“Para
onde vai São Paulo”, como sugere o título da matéria do Estadão, é a
grande pergunta que todos temos de responder. Para muitos deve ficar onde
sempre esteve, mesmo que isso signifique um lento estrangulamento da cidade, de
suas potencialidades econômicas e humanas.

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