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Zé Paulo –  Quando decidiu escolher o curso de medicina veterinária?
Vilma Costa – Havia acabado de retornar das férias em Pernambuco, tive muito tempo e muita calma para refletir sobre o futuro. O ano era 2009, dois anos antes havia feito uma denúncia de corrupção em uma escola e estava sendo ameaçada por alguns professores corruptos. Na verdade minha primeira formação é em História, depois fiz biologia e quando decidi fazer medicina veterinária, bom, foi para resolver um problema administrativo da Ararinha Azul e acabar com a alta rotatividade deste profissional em nosso consultório. Um fator muito importante, de muito peso em minha decisão, foi a desilusão com a educação no país. Antes, trabalhava como professora de cursinho pré-vestibular e ensino médio, além de trabalhar no Beto Carreiro e na Ararinha Azul como bióloga.
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Zé Paulo  Qual o papel da medicina veterinária na sociedade? 
Vilma Costa – Que bom que perguntou, pois isto está sempre engasgado e é o que mais me sufoca. O médico veterinário não é apenas um médico de cães e gatos. Nosso papel é de extrema importância para a sociedade. É nosso dever zelar pelo bem estar  animal no campo ao longo de sua vida até o abate. Somos responsáveis pela qualidade de todos os alimentos de origem animal que está na mesa da população no mundo todo (leite, carnes, ovos, embutidos). Há um médico veterinário em todos os setores da indústria alimentícia, desde a fazenda que cria os animais até o produto final sair da indústria para abastecer o comércio. No local onde estes produtos são comercializados é obrigatório a presença do veterinário para garantir a qualidade destes produtos e forma de armazenamento. O controle de zoonozes (doenças transmitidas de animais para humanos), barreiras sanitárias (para impedir que doenças ultrapassem as fronteiras). Esta profissão exige muita responsabilidade e comprometimento do profissional, além de muita disciplina para cumprir horas de estudo e de aprimoramento. A clínica de pequenos animais, embora seja responsável pela grande procura pelo curso, não é o foco principal. Na clínica, o objetivo é bem estar, saúde física e mental, do animal e do proprietário. Sinto falta de divulgação de campanhas de vacinação contra leptospirose e raiva em clinicas particulares. Nosso conselho, CRMV é quase invisível, inoperante e não temos força sindical. Somos profissionais que garante a saúde da população, antes mesmo de qualquer intervenção de um médico humano e não somos valorizados e muito menos reconhecidos pela sociedade que desconhece nossas habilidades e funções. Antigamente era uma relação de trabalho, os cavalos eram domesticados para prestarem serviços, transportarem cargas, pessoas. Tinham papel importante na logística das tropas e nas conquistas de novos territórios. Os outros animais, basicamente serviam para fornecimento de alimento e couro. Depois, muitos passaram a ser utilizados nas pesquisas médicas e algumas espécies, como os gansos, tiveram seu período de glória, sendo oferecidos como presentes para realeza. As raças de cães foram sendo desenvolvidas e aprimoradas de acordo com a necessidade humana, os mastinos napolitanos, cães gigantes, eram utilizados na guerra para amedrontarem os oponentes que não os reconheciam como cães e sim como monstros, feras. Os cães pastores, utilizados para agrupar os rebanhos, os labradores como cães guias.  Agora, nenhuma espécie foi e é tão injustiçada e perseguida quanto os gatos, que já foram considerados como demoníacos, bruxos e mais recentemente como um risco à saúde da gestante e do bebê. Vitima da ignorância, inclusive de médicos humanos que insistem em afirmar que felinos transmitem toxoplasmose e orientam suas pacientes a se livrarem dos animais. Um absurdo.
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Zé Paulo – Você consegue perceber a evolução da importância dos  animais de estimação na família?
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Vilma Costa – A família mudou, hoje não é raro ter um animal de estimação ocupando o lugar de um filho que o casal não pretende ter; o lugar de um pai ou uma mãe que já partiu, um parceiro que ainda não surgiu; para preencher um vazio, para quebrar o silêncio em casa. Animais podem auxiliar no tratamento de doenças como a depressão; na recuperação de pacientes internados; estimular crianças que tem dificuldades para falar, caminhar, interagir e  brincar. Alcançaram o status de membros das famílias, os irmãos mais novos, os filhos caçulas e em muitos casos, o único ouvinte, a única companhia fiel e sincera.
 
Zé Paulo – Qual sua visão sobre as sociedades protetoras dos animais?
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Vilma Costa – Penso que as sociedades protetoras dos animais secam gelo, pois tentam tratar a consequência e não a causa. Conheci de perto e ingenuamente fiz parte de uma ONG, muito conhecida, bastante presente na mídia, mas que não fazia nada além de arrecadar dinheiro e acumular animais. Muitos dos presidentes dessas instituições tem acesso aos governantes e não fazem uso de sua voz para tentar mudar a causa de base, a doença primária, que faz com que tantos animais sejam abandonados nas ruas. Não utilizam a voz, nem ao menos para mobilizar a sociedade e chamar a atenção para o problema que é de saúde pública e animal. Os animais domésticos  são vistos pela legislação brasileira como um bem e não como um incapaz, já que é incapaz de sobreviver sem um humano, por isso não tem proteção legal efetiva. De que adianta resgatar um animal se ao mesmo tempo tantos outros estão sendo abandonados? Não seria mais efetivo educar? Alertar sobre os riscos à saúde pública ao invés de se utilizar apenas o apelo afetivo? Penso que é necessário realizar campanhas de castração nas periferias e tenho certeza de que não há solução sem educação.Pode ser um trabalho bonito, árduo, porém sem efeitos para a espécie e para o problema. Resolve-se um problema do indivíduo, não do coletivo.
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Zé Paulo – O que fazer antes de decidir ter um animal de estimação?
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Vilma Costa – Conhecimento é a chave, a arma mais poderosa contra o abandono. Conhecer as características do animal antes de adquirir, se conhecer, se questionar, ser responsável. Saber qual expectativa de vida e ter certeza de que será responsável por ela. Pesquisar sobre hábitos alimentares, comportamentais, se o animal vive bem sozinho ou se necessita de um companheiro, se vive bem em cativeiro, como é a adaptação no novo lar. Pesquisar sobre custos de manutenção: vacinas, alimentação, moradia, necessidades especiais, como utilização de protetor solar para algumas raças de cães. É como ter um filho, porém, jamais vai se decepcionar, pois um cão fará sempre o que for possível para te agradar. Ainda que se esqueça de alimentá-lo, que chegue tarde, ele estará sempre a sua espera e feliz ao rever o amigo humano.  Quer ter cores na vida? Amar e ser correspondido? Não se decepcionar? Adote um animal e nunca, jamais o desrespeite.
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Zé Paulo é economista e editor do blog JPE
Vilma Costa é veterinária / bióloga e assina a coluna Biologia e Veterinária do Blog JPE

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